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29 de jan. de 2015

Épocas

Hoje na biblioteca vi um jovem cabeludo enrolando as pontas do cabelo e pensei, uma época era eu assim, cabeludo, contra todos e contra tudo.

Era uma época boa, minhas preocupações não ultrapassavam meu umbigo, ou o limite do meu pensamento.

Nessa mesma época eu precisava escolher a profissão da minha vida. Eu queria ser poeta e escritor, mais nada. Pensava que só precisaria ler livros e escrever. Época inocente.

Um tempo atrás eu queria ser maldito, invisível, publicar meus livros e ficar no meu canto, longe, afastado. Talvez hoje eu seja, mas porque não vem nenhum repórter até mim.

Lembro perfeitamente da época que minha conta bancária não ultrapassava dois dígitos; depois ela chegou a três e não saía; quando chegou a quatro pensei estar rico. Pobre de mim. Mal sabia que entre quatro e cinco dígitos a diferença é a conta a pagar.

Houve uma época que eu era aluno e odiava a escola; chegou o tempo de professor e eu mantive o sentimento. A única esperança que alimento, em relação à escola, é que ela sai da época das cavernas e viva o presente.

Em determinado momento da vida queria escrever em jornais e revistas, e também ser revisor. Eu ainda não sabia como é vida midiática. Depois não quis saber mais disso, julguei tudo e todos e deixei a ideia de lado.

Deixar de lado boas ideias é constante na vida. Lembro da época que queria tocar violão perfeitamente sem precisar estudar horas a fio. Pobre de mim.


Fico lembrando das épocas que vivi e imaginando as que virão.

29 de nov. de 2014

A prova

Vivemos em uma sociedade em que tudo precisa ser provado e comprovado. São as teses que devem ser comprovadas e aprovadas. São as aparências que precisam de aprovação. Nossas ideias, então, necessitam aprovações.

A ciência prova tudo. Ou quase tudo. A prova disso é que com a morte de Roberto Bolaños nós ficamos órfãos de um personagem que nada teve de científico. Não provava nada. Nada tinha a não ser um barril como casa.

Provamos hoje que consideramos o personagem Chaves e Chapolim imortais. Não precisamos de nenhuma autoridade para declarar que a partir de agora o Chaves e o Chapolim não serão mais apenas personagens do seriado; eles são, acima de tudo, personagens imortais - assim como tantos outros que inspiram milhares de pessoas mundo afora.



Nós rimos muito assistindo ao Senhor Madruga batendo no Chaves, nós ríamos de doer a barriga com as trapalhadas na Vila. E eu provo por a mais b agora mesmo que no mínimo todos os telespectadores já viram mais de dez vezes cada episódio de Chaves; e aposto, para não ter mais uma prova garantida no currículo, que todas as pessoas um dia comeram um sanduíche de presunto de tanto ouvir o Chaves falar.

Todos nós queremos uma fantasia para ilustrar nosso imaginário. Gostamos e elegemos os personagens para povoar nossas mentes enquanto as ideias são compatíveis. Alguns duram horas, outros, meses ou anos, no entanto, alguns acompanham nossas vidas por anos. E assim foi o grande herói Chapolim Colorado. Com jargões que estão na gíria da galera há anos.

O homem por trás do personagem nos deixou. O personagem não nos deixará. Isso eu provo a você. Mesmo que essa seja uma prova "sem querer querendo"...


20 de mai. de 2014

Contatos

Logo que voltei a morar em BH (2007), eu estava decidido a ficar quieto, na minha. Já havia optado pela profissão de escritor, e queria ficar no estilo dos meus escritores preferidos, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Ou seja: longe dos holofotes.

Conhecia as pessoas e não trocava telefone, anotava e-mail, nada disso. Vez por outra eu anotava um telefone, mas só de quem me interessava mesmo. Nunca gostei desse negócio de ter mil contatos na agenda.

Com o passar dos anos fui me "socializando", criei uma conta no Facebook, postei fotos e algumas outras coisas. Paralelo a isso, meu trabalho como professor e revisor de textos pelo Certa Palavra ia sem muita publicidade. O mínimo de publicidade me trazia o mínimo de dinheiro, mas eu não queria saber de exposição.

Até que decidi que o Certa Palavra deveria ter publicidade. E não é que o trem virou! Hoje faço propagandas nas redes sociais e nas ruas. Toda semana vou nas escolas e nos cursinhos panfletar e atrair alunos para os cursos.

Sempre do meu jeito, sem grandes alardes, sem me promover como o grande-foda-do-pedaço. Nisso, consegui firmar parceria com um conhecido cursinho de Química.

Até que fui indicado a fazer a revisão do próximo livro do professor Pachecão. Para quem não conhece, o Pachecão é o professor que revolucionou a maneira de dar aulas nos cursinhos, com música, festa em sala; gravou CD com as músicas de física e mais uma porção de coisas.



Enfim, quando comentei com alguns amigos que estava trabalhando no próximo livro do Pachecão, várias pessoas me disseram, que bom, ele é um ótimo contato, pode arrumar uma boa indicação pra você, ele pode te colocar num cursinho bom, ele pode isso, ele pode aquilo... Engraçado, ninguém comentou nada a respeito do meu trabalho estar dando os frutos que planto há anos, ninguém valorizou meu trabalho, apenas os contatos que ele poderia me indicar.

Os contatos que tenho são classificados assim, por mim: familiares, amizades, profissionais. Família e amigos são sempre bem-vindos; os profissionais são duvidosos, sempre. Muitos buscam desclassificar meu trabalho apenas porque não sigo o padrãozinho que está por aí; outros firmam parcerias que nunca dão certo; tenho "parcerias" que só servem para mandar trabalho e pedir favor, mas pagar que é bom nada. Isso é parceria?

Quantos amigos se fizeram parceiros e na hora da grana sumiram? Quantos se fizeram de amigos e difamaram seu trabalho? Quantos contatos você tem na agenda que não servem para nada?

Todos os dias busco fazer parceria e na grande maioria escuto "não" eufemizado. Na terra dos eufemismos e meias verdades eu caminho ouvindo "nãos", vendo pessoas me diminuírem para supervalorizar talentos duvidosos. Mas isso não me importa mais. Minha meta é outra.

Minha meta é trabalhar para transformar esses "nãos". Tudo nessa vida muda. Um dia, e esse dia virá, essas pessoas que hoje dizem "não" sem conhecer meu trabalho, virão me procurar.

Escreva o que estou escrevendo. Ficou esquisito, né? Mas escreva mesmo assim.

27 de abr. de 2014

O mundo é contra nós?

Minha dúvida se o mundo é contra nós não é à toa. Quem nunca sentiu isso, de o mundo todo estar em sentido contrário ao seu? Aposto que você já sentiu.

A resposta para minha pergunta vem em seguida: a vida está a nosso favor. Disso eu tenho certeza. E por fatos que comprovam a minha idiota teoria de que o mundo está contra nós.

Era o velório do meu tio mais velho, em 2011. Estávamos todos lá, inclusive minha avó com seus 99 anos. Ela estava velando seu primogênito aos 99 anos - impossível pra gente imaginar isso. Enfim, eu vivia uma crise em relação à fé, achava absurdo as pessoas acreditarem em Deus como supremo, como criador de tudo e detentor dos nossos destinos. Eu não conseguia enxergar fé, não conseguia imaginar que uma oração seria capaz de dar paz, tranquilidade, esperança.

Quando o caixão foi fechar, todos nós demos as mãos para rezar um Pai Nosso. Eu fiquei de frente para minha avó. (Nem preciso dizer que ela era muito religiosa, preciso?) Durante a oração, simplesmente minha garganta travou e eu não conseguia pronunciar uma única palavra, nem em pensamento eu conseguia rezar. Minha avó me olhava firme, eu olhava para ela, e eu não conseguia pronunciar uma única palavra. O olhar dela penetrava meus olhos - tenho a imagem em minha mente nesse momento - e eu não conseguia rezar. A única reação que consegui foi fazer o sinal da cruz quando terminaram de rezar.

Eu julguei Deus pela morte do meu tio, achava um absurdo minha avó passar por mais uma morte na família, logo ela, uma pessoa tão boa, tão devota, enterrar seu filho aos 99 anos. Parecia que a vida me ensinava ali, no cemitério, mais uma lição. Uma lição que um jovem trouxa - como a maioria dos jovens - fazia de tudo para não aprender.

E quando eu achava que a lição do dia tinha terminado veio mais uma. Estávamos na avenida, logo que abriu o sinal, e veio um motoqueiro cortando todo mundo, inclusive eu. Esse cara estava sem capacete, de chinelo, e cortou todos os carros da direita para a esquerda, até bater no meio fio, subir na calçada de pedras e bater a cabeça na mureta. Foi impressionante, eu fiquei chocado.

Eu saía do cemitério criticando Deus por fazer minha avó sofrer mais uma perda, julgando Deus e o mundo, e bem na minha frente passa um camarada de moto e seu destino deve ter terminado ali, naquele momento que eu refletia. Naquele momento eu pensei, realmente, eu sou um idiota, um ser pequeno, uma simples pessoa que quer ser grande antes de crescer.


A vida nos ensina muito. Muitas e muitas vezes alguma coisa acontece que eu penso, pronto, estou ferrado. E logo depois vem a vida e mostra que há uma luz que eu ainda não havia visto. Nesses momentos é que percebemos como somos pequenos.

É como pequenos fantasmas que afloram nossa mente, pequenos mesmo, mas nós os transformamos em gigantes, muito maiores do que nós, talvez do tamanho que não sejamos capazes de passar por cima. Probleminhas que poderíamos passar por cima se não fosse o orgulho, o rancor, o ódio, o ressentimento, a raiva, a mágoa, enfim, coisinhas que nós cultivamos.

Por que não aprendemos a passar por cima do nosso orgulho, do nosso rancor, ao invés de aprendermos, desde cedo, a cultivar a vaidade, a esperar a aprovação dos outros? Como podemos deixar a mágoa, o ressentimento, de lado e passar a viver com aquilo que somos de verdade?

Às vezes penso que o mundo está contra nós. Mas às vezes eu tenho certeza que a vida está a meu favor. Agora, basta que eu deixe de ser burro e aprenda as lições - antes que as lições venham como tapas, para eu aprender da marra.

Muitas lições eu aprendi lendo os grandes autores. Muitas frases que eu leio e penso: é isso aí, entendi. Mas só depois de muito tempo eu tenho o aprendizado verdadeiro. E então eu descubro que é a vida quem escolhe quando eu devo aprender de verdade.

Leio que a verdadeira força está na capacidade de superação, de contra-atacar, de reagir. Então, se um fantasma vem assombrar sua mente com pensamentos ruins, precisa ter força para colocá-lo para fora, assombrá-lo com pensamentos bons. É difícil, eu sei e você sabe. Mas a graça da vida está nisso, em fazer você e eu termos forças para contra-atacar.

O mundo está contra? A vida está contra? E se eu mudar as perguntas?

Eu estou disposto a enfrentar os problemas? Estou disposto a enfrentar os fantasmas? Estou afim de que o mundo gire para o lado que estou girando?

Eu cansei de nadar contra a maré. A vida não é contra nós. A vida é minha, a vida é nossa. Vamos tocá-la para frente? Vamos deixar os fantasmas adormecidos e acreditar que eles não são maiores do que nós?

Pronto? Então aí vamos nós...



13 de fev. de 2014

As palavras

"Nada temos a temer exceto as palavras"
 (Rubem Fonseca)


Dizem que um dia a palavra dita valia como honra. Vem daí a expressão dou minha palavra

Hoje milhões de palavras são ditas diariamente, e pelo que tenho vivido, o valor dessas palavras mudaram.

Um acordo verbal, aqui onde vivo, vale o mesmo que nada. É impressionante como as palavras hoje se dissipam e seus valores vão com o vento.

A palavra vale o mesmo que uma sombra em dia nublado, ou um guarda-chuva em dia de sol - no máximo para esconder uma desculpa.

Acordo firmado com palavras só vale - aqui - para o favorecido. Se as duas partes forem favorecidas, alguém dá um jeito de sacanear o outro.

Não sei se isso vem da educação, da índole, ou qualquer outro motivo. Só sei que aqui a frase de Rubem Fonseca fica sem sentido. Nada temem as palavras, não cumprem as palavras.

São só palavras ao vento, sem assinatura ou rubrica. Minha dúvida é: o que vale uma pessoa sem palavra?


30 de dez. de 2013

Eu sou de Foz

Ser de Foz não quer dizer que a pessoa nasceu em Foz do Iguaçu. Como também não quer dizer que a pessoa more em Foz. Ser de Foz é estar em qualquer parte do planeta e ter morado algum tempo em Foz, ter amigos de Foz.

Foz do Iguaçu é uma cidade onde convivem muçulmanos, judeus, árabes, orientais, argentinos, paraguaios, brasileiros, enfim, uma pequena parte do mundo convivendo pacificamente. Andar pelas ruas e ouvir diferentes sotaques, ver diferentes vestimentas. 

Tenho grandes amigos em Foz e a cada visita é uma felicidade sem tamanho. Rever amigos, relembrar histórias, reviver momentos faz bem para a alma, para o corpo. É muito bom saber que depois de viajar mais de 1.500 km sou recebido com sorrisos, abraços.

Em época de feriadão é ainda melhor viajar pra Foz. É quando encontramos toda  a galera de Foz - que não mora mais em Foz. Muitos já são pais e mães e ver a criançada entre nós é muito saudável. Acaba que conhecemos pessoas que já conhecíamos mas não éramos amigos - irmãos mais novos que antes andavam com a turma mais nova agora já faz parte da turma.

Revi muitos amigos - algumas pessoas que não espera ver, confesso. E confesso que foi ótimo estar em Foz mais uma vez, e desta vez para selar que precisarei voltar várias vezes mais. E por um nobre motivo: minha sobrinha nasceu na terra das Cataratas. 

Voltarei mais vezes - e espero que com mais frequência. Voltarei para batizar minha primeira sobrinha, a Júlia, e ela poderá dizer com toda propriedade um dia: eu sou de Foz.

Foz não é apenas uma cidade, Foz é um estado de espírito, uma amizade sem fim, uma forma de ver o mundo e respeitar as diferentes pessoas, as diferentes culturas. Estar em Foz é acordar cedo, ir ao Paraguai, e à noite beber uma cerveja com os amigos na Argentina. 

Não nasci em Foz, mas eu sempre digo aos outros: eu sou de Foz.

27 de nov. de 2013

Jimi Hendrix

Eu tinha 14 anos quando fiz o primeiro download de uma música de Jimi Hendrix: Purple haze. Foi uma pedrada sonora. Lembro até hoje que ouvia e não conseguia compreender a música. Quis uma guitarra Fender branca para tocar suas músicas.

Uma pena que ainda hoje não consigo tocá-las - eu não nasci para ser músico. No entanto, as músicas de Hendrix estão sempre nas minhas caixas de som, seja no computador, tablet, telefone, carro. Sempre escuto e cada vez mais descubro sons.

Uma pequena busca no YouTube apenas pelo nome do músico é possível escutar não só todas as suas músicas, como documentários, versões, covers, aprender a tocar na guitarra, depoimentos. Hoje podemos assistir aos mais lendários shows de Hendrix.

Muitas músicas de autores que gosto eu pensei que eram composições de Jimi. Dois exemplos são Day Tripper (Beatles) e Sunshine of you love (Cream - Clapton). Essas duas músicas eu curtia achando que eram composições do mestre Hendrix. E até hoje eu escuto e gosto mais do Hendrix tocando.

Hoje é aniversário de nascimento do homem de mudou a maneira de tocar guitarra. Uma pessoa que teve a vida como obstáculo, muitas dificuldades, muitas barreiras, muita gente trapaceando, puxando seu tapete. E apesar de tudo isso ele seguiu seus sonhos, seguiu tocando sua guitarra.

Vale a pena procurar alguns documentários e conhecer a pessoa Jimi Hendrix por trás do mito.

Com vocês, Jimi Hendrix tocando Purple Haze...





18 de set. de 2013

Crônica sem vontade de ser crônica

1 - É realmente triste e deprimente saber que o Brasil é e continuará a ser o país da impunidade. Tem o que pensar de um país como o nosso? Viva o Brasil!


2 - Depois de mais de 6 anos resolvi colocar uma televisão no meu quarto. Na primeira noite ficou uma luz clareando o quarto e me incomodando a noite toda. Acordei com uma crônica pronta, inteirinha na minha cabeça. O problema é que ela não foi escrita, ainda.


3 - Trabalho como professor de língua portuguesa. Cada dia que passa minhas reflexões sobre o ensino, a aprendizagem, a escola, o sistema educacional me fazem não ter fé na educação em nosso país. É muito complicado e difícil acreditar que é possível haver mudança para melhor, em curto e médio prazo. Se você pensar que nossas escolas (e concursos) permanecem no século 19 e nossos alunos no século 21, mal sabendo ler um texto e compreender o que esse texto tem de significados e sentidos.

Os estudantes passam mais tempo lendo e escrevendo do que fazendo outras coisas. Lendo e escrevendo nos telefones e computadores, em redes sociais. Agora, quando se trata de leitura de livros e revistas a coisa muda de lugar.

É deprimente. E não é só de escola que eu falo. Inclua as faculdades e universidades. Mesmo que não queira acreditar...


4 - E nós, professores, somos obrigados a permanecer no século...? É duro, viu!


5 - E você, em que século está?


30 de ago. de 2013

Para quem escrevemos?

A pergunta realmente é essa: para quem os escritores de primeira viagem escrevem?

Às vezes parece que o livro não pode ser um entretenimento, um parceiro para momentos de espera, de solidão. Acho ótimo ter algo para ler enquanto espero no ponto, espero alguém.

Enquanto pensava na produção do meu livro eu sempre tinha em mente que meu livro deveria ser entretenimento. Não é diminuir o valor literário do meu livro.

O valor literário é decidido por duas pessoas: o autor e o leitor.

Em se tratando de primeiro livro, fica difícil saber quem é seu leitor. Como chegar ao leitor? O jeito mais difícil hoje é pelas livrarias. As portas ficam encostadas, e quando você tenta abri-las, alguém se lembra de fechar - para não entrar vento.

Apresento meu livro, digo que sou escritor. Eles dizem um valor. Eu agradeço.

Você olha desconfiado para a capa de um autor de primeira viagem? Você o consideraria bom ou ruim?

Estou com uma ideia, veja se é boa. Escrevo com pseudônimo, saio à venda como agente literário. As portas se fechariam tanto? Os olhares mudariam?

O leitor deve ser amigo do escritor.Amigo de verdade, daquele que fala bem ou mal.


9 de jul. de 2013

Escrever

Escrever é uma atividade muito praticada, tanto profissionalmente quanto por prazer. Uma amostra é o número de blogs.

Existem blogs para todos os interesses. Assim como existem revistas e jornais para todos os interesses. A diferença, a meu ver, é que quem escreve em jornais e revista faz publicidade.

O leitor pode estranhar a afirmação e contestar, porém é a verdade. Faça um teste, pegue uma revista qualquer e leia uma matéria. Repare o número de adjetivos, as informações, as empresas mencionadas, a forma como o assunto e o produto são tratados.

Eu não tenho absolutamente nada contra matérias pagas. Até porque leio alguns jornais e revistas, agora, fico pensando em quem escreve para alguns periódicos.

Conheço algumas pessoas e as próprias me afirmam que as matérias pagas são a maioria. E geralmente quem escreve carrega certa insatisfação em fazer isso, e com razão.

A pessoa estuda, pratica bastante, sonha fazer jornalismo de verdade, e quando chega o momento precisa falar bem de uma pousada, de um produto, de um político.

Eu sempre quis escrever para jornal ou revista como cronista, e ainda quero, mesmo sabendo disso. Se amanhã chegar a oportunidade, certamente irei. Agora, espero que não seja para fazer publicidade no lugar das crônicas.

Que fique claro, nada tenho contra publicidade e publicitários. Acredito que eu me sairia bem criando slogans.

Mas não no lugar de crônica ou reportagem.


7 de jun. de 2013

E se...

E se nós soubéssemos o que acontecerá amanhã? Se soubéssemos exatamente o que acontecerá amanhã?

A realidade não é como imaginamos. Ontem pensei que hoje eu teria sido o sorteado na loteria e largaria tudo num chute só. Fui...

Mas não, estou aqui, burocraticamente vivendo e sonhando. E se eu ganhasse na loteria fim de semana, o que faria? Chutaria o balde para viver de amor – e juros bancários?

Faria cruzeiros, viagens alucinantes, conheceria os cantinhos de cada país?

Ou simplesmente ficaria à toa? O que será que eu faria?

E se eu contasse a você que eu não quero grandes coisas, não quero outro lugar senão o meu?

E se eu falasse que gosto quando as pessoas não dão nada por mim, você acreditaria? Não sei de onde veio essa ideia, mas tem tempo que penso assim.

E se... E se eu estivesse nem aí para a vida das pessoas, não quisesse curtir mais ninguém no Facebook? Tem coisas que eu curto, mas não curto.

E se a crônica acabasse agora?


21 de mai. de 2013

Pronunciamento em reunião secreta


Muito se diz hoje em acesso ao poder, e cada vez mais as minorias têm tido poder. O poder está nas palavras, nas ações, nas formas de falar e agir. O discurso daqueles que defendem as minorias tem as palavras certas, as expressões certas, o jeito certo de falar e ser compreendido.

Nós utilizamos a linguagem como meio de chegar aos objetivos, nós precisamos conhecer as palavras certas para chegar ao eleitorado. Ao abordar uma pessoa na rua, dependendo das palavras utilizadas, conseguimos saber tudo sobre ela. É um exemplo individual, eu sei, porém conhecendo cada um chegamos ao povo.

O povo não nasceu para o poder. O povo é o povo, ele precisa de governantes, precisa de pessoas certas para indicar as opções corretas. E nós somos as pessoas corretas para isso. Somos nós quem vamos governar o povo e fazer as escolhas certas.

Vamos utilizar as palavras certas, vamos fazer os mais belos discursos, propagandas. Nossa linguagem será simples e direta, nada de palavras difíceis, discursos complexos. Utilizaremos a linguagem do povo, falaremos diretamente ao povo.

Nós faremos o possível para continuar aqui o poder. Nós temos as mídias. Passaremos inaugurações no jornal do meio dia, discursos na periferia no jornal da noite. Manteremos a equipe de mídia sempre trabalhando. Manteremos o poder conosco, e isso com muito esforço, muita garra, e com as palavras certas.

O pensamento precisa ser claro, o discurso precisa ser direto. O eleitor precisa acreditar, precisa sair convencido de que a melhor opção somos nós. Somos a esperança deles.

Pensem o seguinte: nós moramos em um local com limites para impedir o acesso ao poder; esse limite é a linguagem. Não podemos deixar os caipiras chegarem ao poder, os pobres com a linguagem deles. Por isso nós estamos falando a linguagem deles, para eles não chegarem aos nossos lugares.

Nossa tarefa é fazer o melhor trabalho possível para continuarmos no poder. E continuando no poder, continuaremos escolhendo as melhores opções.

Enquanto nós estivermos no comando, enquanto nós detivermos o poder da linguagem, nós faremos as escolhas. Continuaremos falando a linguagem deles, com eles. Manteremos nossos postos. Utilizaremos a linguagem como um arame farpado para bloquear o acesso ao poder.



Márcio AF Souza é cronista, autor de “A comédia da vida alheia”.

1 de abr. de 2013

A palavra da vez é educação

Todo mundo que quer ser ouvido com crédito ao ser questionado sobre o futuro do Brasil diz: o problema é a educação. Pura e simplesmente, a culpa é da coitada da educação.

Pensando assim, o governo cria algumas medidas para que as pessoas possam dizer que o Brasil está caminhando para frente. E o que acontece? Caminha-se para trás. 

Sou a favor das pessoas frequentarem universidade, das pessoas terem educação escolar digna e de qualidade, mas tapar o sol com a peneira não é possível. A Academia não suporta pessoas que não tenham a base escolar; o ritmo de estudo e as exigências do estudo acadêmico não podem esperar um acadêmico buscar a base para então fazer a pesquisa.

Agora que expus meu ponto de vista sobre o debate da vez, quero chamar a atenção para a verdadeira educação. Aquela recebida em casa. A educação familiar. Aquela esquecida em casas e apartamentos cujo espaço de convivência cedeu lugar para a enorme tevê de LCD. As conversas que perderam ouvidos para os fones.

Muito se fala em educação e cultura. Creio que em vão. O que faz a cabeça dos jovens são as maiores porcarias que o mercado fonográfico consegue produzir e vender. É empurrado goela abaixo através da facilidade de compreensão, do nível que estão os adolescentes da geração Apple. 

Essa turminha que hoje inicia uma palavra e o computador completa, escreve errado e o computador corrige. São esses jovens que estarão no comando o dia que meu filho (se eu tiver um) for estudante universitário; esses adolescentes de hoje que entram no carro com fone no ouvido, ingerindo lixo pelos ouvidos; essas criaturas que sequer sabem conversar; os mesmos jovens que não sabem o que é trabalho em equipe, não sabem ficar em silêncio enquanto um professor fala.

Enfim, foram educados pela televisão, e o pior, pelos estúdios americanos. São os fãs da Disney, do Steve Jobs, essas pessoas que acreditam que precisam comentar tudo; eles serão os professores do meu filho, do seu filho. 

Isso se até lá existir professores. 

A palavra da vez é educação. 

O que a palavra da vez significa pra você? 

8 de fev. de 2013

Quem vai comprar essa briga?

Essa semana a seleção brasileira perdeu para a Inglaterra. Muitas reportagens foram realizadas e vários são os motivos da derrota - e inúmeras opções para reverter a situação da seleção foram ofertadas ao vivo, em mesas com grandes comentaristas. Além do papo de botequim.

O inglês Joey Barton critiou Neymar e virou assunto da semana. Muito bem, pelo menos ele critica Neymar. Já passou da hora da imprensa olhar para o Neymar não como um vendedor de produtos, e sim como atleta profissional. Se ele errou, que seja falado; se ele caiu na área, caiu. Se ele estiver mal, substitua. Se for bem, aplauda. Alguém poderia falar para ele usar máscara apenas nas noites de carnaval; ou para os comerciais. 

Ronaldinho Gaúcho é o jogador que todos querem que jogue aquela bola que já vimos. Infelizmente temos que aceitar, ele não mais jogará aquele futebol. Tem categoria, capacidade, e muito potencial. Mas a vida é outra, estamos em 2013 e aquele futebol que ele jogou ficou para os vídeos. Sou fã do futebol dele, gostaria muito que ele sentisse o peso de ser convocado, ser titular, camisa 10, e jogar como deve jogar um camisa 10 da seleção. E o principal, ser um camisa 10 digno da história da canarinho.

Vivemos hoje, no Brasil, uma sensação tão desagradável de sediar uma Copa. O que mais vemos é corrupção, safadeza. Estamos descrentes. Não será o futebol que fará de nós um povo alegre, saltitante nas passarelas de sorrisos. O brasileiro não merece a fama que tem. 

Alguém aí poderia escrever um livro assim: Futebol - empresários x empresas.

É uma pena que sediar uma Copa do Mundo seja isso que vemos. Isso acaba com o sonho de qualquer um.






29 de jan. de 2013

Que mundo é esse?

1 - A notícia da vez é sobre a tragédia de Santa Maria. Todo mundo falou sobre tudo. Existem inúmeras maneiras para não acontecer incêndio parecido em outro lugar. E torcemos para não haver nada parecido. Agora, vamos prevenir?

2 - Prevenir que as chuvas não acabem com as casas das pessoas, com a vida de pessoas. Nesses casos nós todos sabemos que são os culpados - todos sabemos. Nesses casos, nós sabemos as causas dos desastres - todos sabemos.

3 - Minha geração nasceu cansada. Alguns dirão, você que fica aí, não vai na manifestação, não reclama, não isso e não aquilo. Valorizo muito as manifestações, acho digno e honroso. Mas é cansado, é um discurso cansado. 

4 - Não quero causar briga e nem chamar a atenção. Não sou de fazer polêmica - eu acho. 

5 - Tive inúmeras conversas com pais de alunos durante os anos de docência e cheguei à ideia de que eles não pagam para o filho aprender, obter conhecimentos, pensar, tomar decisões, aceitar regras e normas e obedecer à disciplina local. Eles pagam para o filho passar de ano. É essa a mentalidade. 

6 - Orgulhosamente eu digo, farei meu papel para contribuir com um novo mundo. Depois do carnaval - afinal, tudo é depois do carnaval - eu irei ao trabalho de bicicleta. 

7 - A Mina do Cara te ama!

6 de dez. de 2012

Rafinha Bastos, seu babaca

A semana começou com a foto do Rafinha Bastos e um xingamento ao Luciano Huck, bem ali, na página do meu email. Não quero saber nada de ambos, não me interessa nada deles. E antes de mais nada, nós temos que admirar o Luciano Huck.

Um cara que está com problemas com sua casa em uma ilha de Angra, que contrata o escritório da esposa do governador e pouco depois tem sua área legalizada não é de se admirar?

Você, Rafinha, está andando errado. Tá mexendo com essas pessoas que dominam a mídia e ao invés de andar com elas, você rema contra a maré. Pode ser essa a imagem que quer passar, contradizendo o que era ontem. Por que xingar uma pessoa publicamente pelo fato dela ter bebido e dirigido? Você nunca fez isso? Só anda de táxi?

Uma total falta de respeito - e talvez de assunto - criticar um apresentador de televisão por isso. Antes de mais nada ele é uma pessoa. Excelente vendedor, um nome e uma imagem forte, credibilidade na praça, faz e acontece. Mérito dele isso. Ele poderia ter vivido escondido na fortuna do pai, andando de Ferrari, Mc Laren, Porche, e matando pessoas. Mas não.

Rafinha, tire uma hora do seu tempo de querer aparecer e leia um pouco de Verissimo, pra voltar a fazer piada inteligente, porque humorista não é fantoche de programa e saite de fofoca.

Humorista faz rir. Faz rir de deboche, escárnio, sacanagem, de raiva, enfim, o humorista faz rir. Rir das piadas, e não da cara do piadista.

O que aconteceu entre o dia do xingamento e o da desculpa? Esse é um caso para o Mandrake?

Rafinha Bastos, seu babaca, nunca mais mexa com o Luciano Huck. E nem comigo.

13 de set. de 2012

O curioso caso do "não curti"

Os leitores que me acompanham sabem que minha vaidade termina no fim da página, onde está o espaço para a opinião - escrita ou não. Em menos de um segundo sua opinião pode ser "curti" ou "não curti".

Há um tempo quase não era clicado o tal do "não curti". Acontece que, de um tempo para cá, em todas as crônicas ele é acionado, e a opinião do leitor torna-se pública.

Conheço muitos blogs que não têm o tal "não curti". Acredito que o autor, nestes casos, não dá a opção ao seu leitor de não gostar dos escritos.

Este não é o meu caso. Aqui pode-se gostar ou não, como também é permitido comentar anonimamente. Ainda não cheguei ao ponto de recusar opiniões contrárias. Ainda não cheguei ao ponto de "obrigar" meus leitores a me amar e serem favoráveis a tudo o que escrevo.

Observando os fatos cheguei a um ponto interessante. O curioso caso do não curti está ligado diretamente a minha vida pessoal. E como bom curioso que sou, chequei os registros e cheguei ao IP do destinatário do clique.

Sua identidade será preservada - pelo menos até a última linha. Até porque se eu falar agora, você não chegará ao final.

Pois bem, descobri a conexão e o sistema operacional deste leitor que entra aqui, fica pouco tempo - talvez o necessário para clicar "não curti" - e sai. Faz o caminho inverso ao Facebook, uma de suas maiores ocupações virtuais.

Já sei que vem direto a Mina do Cara. Frequenta minha vida - escrita - e não curte mais o que escrevo. Esta pessoa muitas vezes já curtiu e até comentou. Sorriu e chorou por aqui também.

Fico pensando: por que acha que clicando o curioso "não curti" esta pessoa acredita estar me "cutucando"? Por que não comenta como anônimo, caro leitor Fulano de Tal?

13 de ago. de 2012

Ao meu pai

Entre as várias lições que meu pai dá, a mais lembrada aqui em casa é quando ele falava: não desejo nada de mal a vocês, só desejo que tenham um filho igual a cada um de vocês. Nós ríamos, achávamos graça e a brincadeira ia terminando aos poucos, até parar. Até que virou motivo de piada, e hoje quando falo aos meus amigos eles riem muito também.

Acredito que em todas as línguas do mundo deve existir a expressão: bem que meu pai falou. Essa frase é repetida aos montes, em todos os lugares, em todas as línguas. Soa muitas vezes como maldição, não soa? Um amigo me contou, certa vez, que falou ao pai seu plano para lucrar uma grana preta num negócio. O pai disse que não valia a pena o investimento. Tanto o filho pentelhou, o coroa bancou o investimento. Não deu outra, falência. Então o pai disse: eu não falei? Nem cobrou.

Damos muitas vezes motivos de desgosto. Agimos mal, nos defendemos atacando, somos ingratos, insatisfeitos. Mas somos filhos. Criados como reis e rainhas, com tudo na mão. Esforço? O mínimo. Até que um dia nós dizemos: a culpa é da minha mãe que...

Lembro de uma vez, quando menino, jogando no clube um campeonato de futebol, eu em campo e meu pai na arquibancada. Ele falava tanto comigo, falava mais que o técnico, foi incomodando, até que parei de jogar e falei: pô pai, deixa jogar!

E quem não tem histórias de futebol entre filho e pai para contar? Eu mesmo tenho uma especial que mudou minha vida. Eu era novo, uns treze, no máximo. Em uma roda de amigos, falando de jogadores de futebol, tocaram no assunto e falaram em desonestidade no futebol. Para mim, futebol nada mais era do que o jogo entre as quatro linhas, nada mais me importava além das quatro linhas.

Desde aquele dia nunca mais quis sonhar em ser jogador de futebol. Fiquei encabulado quando meu pai disse que era uma safadeza o mundo do futebol. Eu jamais gostaria de viver no meio de um mundo desonesto, com pessoas de índole ruim. Pô, eu era inocente. Acreditava em muitas coisas bobas.

Hoje analisando o meio esportivo, eu jamais seria atleta profissional. É difícil demais. Tem que gostar muito e dar a vida. São três paixões da minha vida dadas pelos meus pais: leitura, esporte e música.

Compreendo hoje o valor da base recebida em casa. Nos outros que conseguimos enxergar em nós. A insistência em educar, ser firme, ter o controle da situação, manter o controle da situação.

São escolhas. Eu acreditei que teria que seguir meu coração, e não a razão. Trilhei um caminho mais longo, fui desbravando, cavando meu buraquinho, subindo um degrau depois do outro.

Escolhi ser escritor, mas para ser escritor é preciso ser outra coisa. Conhecendo meu pai, se eu falasse, dez anos atrás, que queria ser escritor, ele falaria: então leia muito, tudo o que você puder. O mesmo que me disseram os professores. Mas não falei nada de ser escritor. E a grana?

Até que um dia decidi que escreveria um livro, mas não falaria dele pra ninguém. Antes de terminar de escrever o livro já tinha contato pra uma porção de gente. E foram anos e anos trabalhando no livro paralelamente até que ele aponta no fim do túnel. E eu só não falo sobre meu livro com meu pai.

Ele verá e saberá que foram anos de trabalho e dedicação. Entenderá, enfim, uma de minhas escolhas. E eu tenho certeza que ele vai ficar encucado querendo saber de onde eu tiro minhas histórias.

Já até pensei na resposta: é aí que tá, pai, de onde eu tiro essas histórias...

10 de ago. de 2012

Dessas eu não sabia

1 – Sempre suspeitei, mas nunca analisei, só sei que é alta minha capacidade de fazer cagada. Não é por mal, acontece. E em meio a uma situação muito delicada, descubro que sim, é genética. Não faço certas coisas de propósito. E para não assustar você, não falarei das asneiras. O dia que eu me sentir deprê vou ao analista pra ele jogar a culpa nas costas da minha mãe.

2 – E por falar em mãe, tenho pensado muito sobre escrever uma bela crônica dedicada a minha mãe. Tem sido uma mulher forte, guerreira, junto das irmãs, em ficar com a mãe – minha avó – de cem anos. Pasmem, cem anos. A situação não é favorável, sua saúde não é mais a mesma, assim como sua força para uma reação. E o plano de saúde pressionando os médicos para darem alta.

3 – Para quem não sabe, estou lançando meu livro, A comédia da vida alheia. O texto está com o editor, espero que saia tudo da melhor forma possível. E tem uma história interessante, antes dele ser lançado. Já publiquei aqui na Mina do Cara várias histórias presentes no livro, já falei do livro para várias pessoas. Só não dei ao meu pai para ler. Será por quê?

4 – E no mais é isso aí, vivemos dias bons, dias ruins, dias que saio da escola e digo que nunca mais quero trabalhar em escola na vida; e tem dias que saio satisfeito, contente por ser professor. E sobre escola quero falar só uma coisa. A maioria das pessoas ficam surpresas e acham que eu sou a pessoa mais paciente do mundo quando falo que sou professor de alunos especiais, com algumas deficiências. Na minha opinião, os especiais são melhores para trabalhar.

5 – Preciso de um investidor com potencial para fazermos multiplicação de dinheiro. Só antecipo que é um lugar lúdico educativo para pessoas com deficiência. Educar e inserir na sociedade sem dogma e paradigma. Se souber de alguém me avise, ok?

19 de dez. de 2011

E eu?

Teve uma época que a pessoa mais ligada a mim disse que eu jamais conquistaria alguém pela simpatia. Queria dizer a essa pessoa que hoje sou professor de crianças e piro demais com elas; conheço todas as crianças da escola, carrego alguns no colo, com outros eu jogo bola na quadra, ando de skate com outro – aliás, ganhei de presente um skate dos alunos. E nessa época de fim de ano fiz o que eu realmente queria fazer, passei alunos que não merecem passar. É o sistema.

Assinei camisa de um monte de alunos hoje, lembrei da minha época de escola. Época boa. E fico pensando, por que não deixar as crianças serem crianças? É muito difícil compreender uma criança, é preciso entender que ela tem pensamentos e está começando a criar sentidos; é preciso cuidado para falar, pois elas escutam tudo e o pior, repetem tudo. Complicado também é saber como cobrar. Pega um menino que a relação familiar é complicada, como esperar educação de uma pessoa que não aprende a ser educada?

Queria dizer a outro amigo, este de longa data, que virei mesmo um professorzinho. Cara, e sabe que estou gostando. Eu não sei como posso assumir isso, mas assumo, eu gosto de ser professor. É legal, no fim das contas. Tem momentos legais, e entre eles o conteúdo. Eu não preciso vomitar regras para os meninos. Posso ensinar. Além disso, estou gostando da escola. Agora, de escola continuo não gostando. Mas isso não é assunto pra agora.

E olha só quem aparece na história. Você mesmo, leitor. Está pensando se a história é minha ou é ficção. Não é ficção, é tudo verdade. Por que não falar um pouco sério, já que tenho brincado um bocado. Faz tempo que quero sentar aqui para escrever uma crônica intitulada: Brasil, o país do desperdício. Quanto desperdício vejo por aí. E sabe que na escola é grande. Um que me chamou a atenção foi o desperdício de inteligência. Quanto pensamento jogado fora.

Você acredita que todos os dias eu pego minha caneta, escrevo no quadro a data, bom dia, “aula de hoje”, e sempre um aluno pergunta, é pra copiar? Isso é sempre. Talvez eles não levem a sério as “aulas de hoje”. Tem cada uma. “Aula de hoje: e o mundo encantado das palavras ataca novamente”, ou, “aula de hoje: revisão 4, a batalha final!”

Agora vou falar com a mãe de um amigo muito especial. Passei anos e anos vendo-a preparar aula em casa, montando planilhas, desenhos, gráficos, enfim, tudo. Para ter ideia, isso foi até 98, em Foz; mudei para BH em 2007 e ela continua lá, sentada na sala lendo jornal para procurar material para os alunos, corrigindo prova, esse trabalho de professor. Nunca fui aluno dela. E eu fico aqui, Rosane, pensando: uma pena eu não ser assim, meus melhores professores foram assim, eles chegavam com a cabeça a mil.

Leitor amigo que me acompanha até aqui, diga-me, gostaria de saber que o professor do seu filho adora ler e escrever, e adora entrar na onda das crianças e criar com elas. Cada trabalho legal os meninos fizeram.

Tem duas histórias que eu preciso contar para você, só que você tem que prometer não contar pra mais ninguém. Ok? Um dia castiguei os meninos a copiarem um texto de um livro; a sala finalmente quieta, de repente, um menino cai no chão. Olhei pra ele, olhei pra sala, aquele clima pesado de depois de briga, voltei a olhar o menino no chão e gritei: bolinho nele! A sala inteira pulou.

A outra história é assim. Era sexta, depois do recreio, véspera de feriadão, aquela zona na escola. Entrei na sala e escrevi no quadro, “aula de hoje: sermão pré-feriado e brincadeira do Silvio Santos”. Já no fim da aula fui até o fundo, mostrei pros meninos um saco de balas e falei, brincadeira do Silvio Santos é assim: eu fico com esse saco de balas aqui no fundo e cada bala que vocês pegarem vale um ponto. Aquela euforia.

Lá do fundo da sala, a meninada doida, pulando, gritando, e eu lá, rindo com um saco de balas na mão. Enfiei a mão, tirei as primeiras e gritei: quem quer ponto! Mais uma mãozada: quem quer ponto! Depois de umas quatro sessões chega o pentelho da turma: Márcio, peguei sete balas, são sete pontos. Olhei pra ele, dei um tapa na mão dele, as balas voaram, os meninos pularam no chão para pegá-las, ele ficou sem bala alguma. Dei uma piscadinha pra ele e fui embora.

Pois é, a vida tem dessas coisas, no início do ano recusei uma escola – por não gostar de escolas. Agora no fim do ano, todas as notas passadas, estou escrevendo e rindo das lembranças. E pensando: ser professor pode ser legal.

Todos os alunos lembram: “aula de hoje: eu queria ser legal”.



PS: É uma pena que eles não podem saber d` A Mina do Cara.