31 de ago. de 2009

O querer ser

"Na verdade, se puder, eu escrevo um livro! Não sei se de uma vez só, mas escrevo. Não deve ser tão difícil assim escrever um livro numa tacada só. "

Agora com a internet em todos os lugares do mundo, podendo ter acesso a tudo e a todos - quase todos diretamente, e indiretamente a todos. O mais afastado sabe de alguma coisa da internet. Pode ser fofoca, fato, mentirinha boba. Alguma coisa sabe.

Ontem conversando com um amigo fiquei pensando no querer ser X ser. Como muitas vezes ficamos sem saber o rumo certo, como se houvesse uma linha traçada com tudo o que vai fazer na vida, sem poder trocar na hora, ou essa troca já está escrita também, e só quem não sabe é você.

Muitas vezes nos dão uma chance. As chances aparecem e nós as agarramos. E se ela é ruim no mês seguinte, nós podemos soltá-la? É aí que o bicho pega.

Tenho observado algumas pessoas, e muitas me falam para fazer outro curso na faculdade. Porra, não quero agora! Qual o problema? Terminei a faculdade, fiz opção em trabalhar em outra área, e tudo bem. Por que os funcionários públicos podem ser escritores e funcionários e eu que nem escritor profissional sou não posso ser qualquer coisa e escrever, criar?

Tem uma coisa muito interessante que ainda não conversei com muita gente sobre. Eu sempre ouvi dizerem: é um artista, ou, tá fazendo arte. E sempre essa criança estava fazendo merda, e não arte. E aí, como fica? Qualquer um grava uma música em casa, solta na rede se torna compositor, músico. Ou escreve em blog e se diz escritor, cronista, poeta.

Não sabemos das porcarias antigas por que nem todos podiam mostrar. Haja esgoto na rede!

27 de ago. de 2009

Procura-se Rubem Fonseca

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Quem?
__Rubem Fonseca. Escritor.
__Não. Aconteceu alguma coisa?
__Não. Só estou procurando-o. Obrigado.


__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. E não conheço ninguém com este nome.
__Obrigado.
__Não tem de quê.


__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. Por quê?
__Estou procurando-o. Sabe onde posso encontrá-lo?
__Não sei quem é, muito menos onde pode encontrá-lo. Não sabe onde ele trabalha?
__Ele é escritor.
__Então porque não olha a foto dele na orelha do livro?
__Ele não põe foto.
__Esses escritores…
__Obrigado.
__Por nada.


__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. O que aconteceu com ele?
__Que eu saiba nada. Sabe de alguma coisa?
__Sobre ele não. Só sei alguma coisa sobre o que ele escreve.
__Pois é. Eu também sei disso. Queria encontrá-lo.
__Pra quê?
__Não sei. Na verdade acho que não saberia o que falar com ele…
__Já perguntou a mais alguém?
__Já sim. Uns senhores aqui mesmo.
__E nenhum deles era o Zé?
__Disseram que não.
__Você é jornalista?
__Longe de mim! Sou apenas um leitor. Eu queria saber se ele fala palavrão.
__Só isso?
__Também. Não sabe onde posso encontrá-lo?
__Continue procurando…
__Obrigado.
__Boa sorte.


__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não!
__Obrigado.


__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Rubem Fonseca?
__É. O escritor.
__Não sou escritor e nem sou Rubem Fonseca. Já pensou em olhar a fotografia dele na orelha do livro?
__Já sim, mas não tem.
__Então boa sorte meu jovem.
__Obrigado.


__Boa tarde senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Sou não. Sou o João Aparecido. Já ouviu falar de mim?
__Não.
__E nem eu do Rubem Fonseca.
__Obrigado.


__Boa tarde senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Meu jovem, não sou. Tenho visto você aqui desde cedo abordando alguns senhores. E agora sei o motivo.
__Pois é… queria ver o Rubem Fonseca.
__Só ver?
__Se eu soubesse o que falar com ele melhor ainda.
__Tem idéia de como ele é?
__Mais ou menos. Sei que já é um senhor mais velho, careca…
__Mas você perguntou a pessoas que não são carecas…
__Numa dessa…
__Você lê os livros dele?
__Claro. Já li quase todos.
__Não percebeu ainda que ele prefere não ser paparicado nas ruas?
__Não quero paparicá-lo. Quero apenas vê-lo, e se possível trocar meia dúzia de palavras. E pedir pra ele ler este meu livro aqui. Se ele tiver tempo, claro.
__Entendi… Já passou pela sua cabeça que pode ter falado com ele e não percebeu?
__Já sim. Mas o que posso fazer?
__Por que não envia este livro a editora, e eles mandam pra ele.
__Será?
__Não custa tentar.
__Obrigado senhor.
__Não há de quê.


*****
Esta e outras estarão no livro Afinal, quem é esse tal Rubem Fonseca?

25 de ago. de 2009

Senhor Presidente da República

Graças a um jovem bom moço, que escreve cartas aqui na praça da cidade, poderei me comunicar com você. (Digo você porque não tenho porquê chamar um homem de Vossa Excelência se este homem rouba e deixa muitos outros roubarem). Eu não sei escrever e nem sei usar os verbos bonitos, como esse moço aqui sabe, então se tiver um erro ou outro na minha carta é culpa minha, e não do moço.

Eu acreditava que você seria um bom presidente. Votei no senhor, convenci meus amigos do boteco a votarem no senhor, fiz apostas, colei adesivos, cartazes, usei camisas, bonés, e em troca o que eu recebo? Nada! Não fizeram o esgoto que prometeram pra nossa favela, a comunidade precisa de água encanada, as crianças não vão à escola porquê não tem professor, os jovens ficam nas ruas, sem empregos, soltos.

Eu não posso mais trabalhar. Estou velho, e minha aposentadoria é miserável. Tenho vergonha de falar isso, mas falo. Preciso falar! Cansei de ver na televisão roubos, fraudes, desvios, acusações, escutas telefônicas, tudo mais para provar que deputados, vereadores, prefeitos, juizes, advogados, e mais lá o que for, estão roubando do povo! É isso mesmo, roubando! São ladrões! E o presidente convive com ladrões! Eu também convivo com ladrões, mas não porque quero!

Sinto uma enorme vergonha por estar na praça pedindo a um jovem que escreve cartas de amor para casais apaixonados escrever esta porcaria de carta. Sei que não irá ler. Mas preciso falar! Tem idéia do que é ser um velho como eu? Sem emprego, analfabeto, com quatro filhos desempregados, uma filha prostituta (nunca assumi isso!), uma esposa que trabalha em casa de madame como doméstica, um neto. Sabe o que é isso?

Sabe presidente, tenho muita vontade de dar uma surra no senhor. É feio dizer isso, mas é verdade! Eu não posso dizer aqui o que deve ser feito no País, não sei também. Sei que você também não sabe. Se sabe não faz. E por que não faz? Não precisa responder, eu sei. (Que vontade de meter a mão na sua cara!). Tem idéia do que estou passando aqui, nesse banco de praça, em frente a um jovem que escreve bonito o que eu falo tudo errado, chorando de raiva, com muita vontade de matar um filho-da-puta-ladrão-ordinário? Tem idéia do que é isso? Atrás de mim tem mais cinco ou seis pessoas, esperando pra declarar seu amor.

Vou terminar minha carta. Não posso mais tomar o tempo deste jovem que nem irá cobrar de mim (que humilhação!). Veja, presidente, até este jovem tem pena de um velho fodido como eu. E vocês, têm pena de alguém? Não sentem vergonha? Não sentem dor ao ver pessoas como eu? Não pensa que poderia ser você, seu filho, seu amigo, aliás, você tem amigos?

Com muita raiva, vontade de meter a mão na sua cara, estrangulá-lo, esquartejá-lo…


Zé Ninguém

22 de ago. de 2009

Domingão de sol

"Alô."
"Renato?
"
"É sim, quem é?"
"Aqui é o Fernando, como está?"
"Melhor impossível. Tô embaixo da sombrinha, na praia, vendo umas gostosas passar em minha frente, tomando um coco geladinho, fumando um, às vezes eu pulo no mar e volto. E você?
"
"Eu estou no hospital. Seu pai morreu.
"
"Quê?!
"
"É isso mesmo. Seu pai faleceu."

"Porra cara, brinca não!
"
"Quem dera...
"
"Mentira! Pára com isso, porra! Caralho!
"
"Mentira cara.
"
"Seu filho da puta! Porra, cara!
"
"Ele está enterrado. Foi hoje.
"
"Porra caralho! Pára com isso, já falei!
"
"É sério. Você achou que o velho é eterno? Quis saber só de disso... Já jantou algum dia com ele?
"
"Seu filho da puta! Você matou meu pai pela grana, não foi?
"
"Claro que não faria isso. A herança é toda sua. Ele deixou escrito e assinado em cartório. Esperei o enterro para avisar, para pelo menos respeitá-lo morto. Agora volte pro seu mar e aproveite. O mar está gelado?"