25 de ago de 2009

Senhor Presidente da República

Graças a um jovem bom moço, que escreve cartas aqui na praça da cidade, poderei me comunicar com você. (Digo você porque não tenho porquê chamar um homem de Vossa Excelência se este homem rouba e deixa muitos outros roubarem). Eu não sei escrever e nem sei usar os verbos bonitos, como esse moço aqui sabe, então se tiver um erro ou outro na minha carta é culpa minha, e não do moço.

Eu acreditava que você seria um bom presidente. Votei no senhor, convenci meus amigos do boteco a votarem no senhor, fiz apostas, colei adesivos, cartazes, usei camisas, bonés, e em troca o que eu recebo? Nada! Não fizeram o esgoto que prometeram pra nossa favela, a comunidade precisa de água encanada, as crianças não vão à escola porquê não tem professor, os jovens ficam nas ruas, sem empregos, soltos.

Eu não posso mais trabalhar. Estou velho, e minha aposentadoria é miserável. Tenho vergonha de falar isso, mas falo. Preciso falar! Cansei de ver na televisão roubos, fraudes, desvios, acusações, escutas telefônicas, tudo mais para provar que deputados, vereadores, prefeitos, juizes, advogados, e mais lá o que for, estão roubando do povo! É isso mesmo, roubando! São ladrões! E o presidente convive com ladrões! Eu também convivo com ladrões, mas não porque quero!

Sinto uma enorme vergonha por estar na praça pedindo a um jovem que escreve cartas de amor para casais apaixonados escrever esta porcaria de carta. Sei que não irá ler. Mas preciso falar! Tem idéia do que é ser um velho como eu? Sem emprego, analfabeto, com quatro filhos desempregados, uma filha prostituta (nunca assumi isso!), uma esposa que trabalha em casa de madame como doméstica, um neto. Sabe o que é isso?

Sabe presidente, tenho muita vontade de dar uma surra no senhor. É feio dizer isso, mas é verdade! Eu não posso dizer aqui o que deve ser feito no País, não sei também. Sei que você também não sabe. Se sabe não faz. E por que não faz? Não precisa responder, eu sei. (Que vontade de meter a mão na sua cara!). Tem idéia do que estou passando aqui, nesse banco de praça, em frente a um jovem que escreve bonito o que eu falo tudo errado, chorando de raiva, com muita vontade de matar um filho-da-puta-ladrão-ordinário? Tem idéia do que é isso? Atrás de mim tem mais cinco ou seis pessoas, esperando pra declarar seu amor.

Vou terminar minha carta. Não posso mais tomar o tempo deste jovem que nem irá cobrar de mim (que humilhação!). Veja, presidente, até este jovem tem pena de um velho fodido como eu. E vocês, têm pena de alguém? Não sentem vergonha? Não sentem dor ao ver pessoas como eu? Não pensa que poderia ser você, seu filho, seu amigo, aliás, você tem amigos?

Com muita raiva, vontade de meter a mão na sua cara, estrangulá-lo, esquartejá-lo…


Zé Ninguém

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