4 de out de 2012

Eu quero paz


Esses dias falei para meus alunos: daqui dez anos, vocês chegarão em uma livraria e verão um livro meu, ficarão curiosos, lerão o livro; e vocês pensarão, ele escreveu enquanto nos dava aula; o que nós perdemos...

E eu penso também. Penso em como poderia gastar meu tempo trabalhando em algo produtivo. A pior sensação é a de incapacidade. Sou professor de alunos especiais, como síndrome de Down, Asperger, alguns com tumores cerebrais, e também alunos regulares. Estes eu sinto que ensino menos, muito menos.

As crianças estão certas de não gostarem de escola. Não há nada mais chato do que uma escola. Agora, para alunos que vibram quando acertam uma questão, alunos que se esforçam para conseguir fazer, superam no dia a dia obstáculos que, para alguns, seriam meros obstáculos, para eles a escola é atraente. É bom demais alunos assim.

Ótima oportunidade para observar, olhar, reparar. Momento oportuno para deixar a vaidade um pouco de lado – para alguns. E justamente nessa hora fica claro o tamanho das pessoas.

Dizem que os pequenos somem na multidão, mas nesse contexto não, os menores se sobresaem.  Como é fácil ver pessoas pequenas. Grandes nomes, grandes marcas, grandes coisas. Literalmente, grande coisa.

Ser ou não ser bom entre os ruins, eis a questão.

Vou contar um caso mas você promete que não comenta com ninguém?

Um dia, uma aluna não terminou a prova no tempo devido. Ela nunca termina. Coloquei-a na sala ao lado e falei: faz a prova enquanto dou aula para essa turma. Dei aula e esqueci que ela ficara fazendo prova. Na sala dos professores, ela chegou com a prova e disse que não havia terminado, e que a diretora da escola, ao passar pela sala, deu duas respostas. Ou seja...

Não é bom receber gestos de honestidade de uma aluna? Ela foi pra casa terminar a prova.

Isso no turno da manhã.

À tarde foi uma comédia. Foi a comédia da vida alheia, em primeira pessoa. Justamente à tarde, hora em que os alunos regulares estão na escola, acontecem as cenas cômicas, aquelas que Verissimo nos ensina a olhar.

E para falar a verdade, não tenho coragem de descrever cenas impróprias para pessoas puras, que não acreditam que episódios tão tragicômicos podem acontecer com pessoas de grandes nomes, grandes marcas, grandes coisas.

Literalmente, grande coisa. 

Um comentário:

Lívia disse...

Adorei, como de costume!
Há tempos não lia aqui... aproveitei pra espalhar vários eu "curti"... rs
Beijos