8 de abr de 2010

Pobre língua portuguesa

O título já demonstra que nossa língua não é pobre. Só aqui temos pelo menos duas interpretações distintas. a) a língua portuguesa é pobre; b) é uma ironia, uma vez que a língua portuguesa não é pobre em nenhum aspecto. Vejamos.

O descaso em relação ao ensino e aprendizado é grande, e isso todo mundo sabe. Basta perguntar para alguém: você gosta de estudar português? Em 99% dos casos a resposta é não; ninguém gosta de estudar a língua portuguesa. E muitas pessoas gostam de estudar língua estrangeira. (Isso é fato, já que eu cursei Letras e convivi com inúmeras pessoas que diziam não gostar de português e gostavam de inglês, espanhol etc.)

Um dos motivos que me leva a acreditar que as pessoas não gostam de estudar nossa bela língua é o fato das escolas abordarem apenas a teoria gramatical; a gramática normativa, como dizem os linguistas. E muito pouco é trabalhado a leitura, a escrita, o conhecimento da história do idioma. E isso faz uma enorme diferença.

Supomos: um aluno com 14 ou 15 anos mal consegue ler e compreender uma página de notícia no jornal; a professora pede que este aluno leia A Moreninha para fazer uma prova. Ele não conseguirá fazer uma boa prova, e de quebra não irá ler mais pelo resto de sua vida; salvo as leituras obrigatórias.

Suposição 2: uma menina quer fazer vestibular para engenharia química, e para isso precisa estudar bastante para conseguir passar na prova; ela lerá Grande Sertão: Veredas, e não conseguirá chegar na página 50. O que ela vai pensar deste gênio da palavra, que é o Guimarães Rosa? O que os alunos pensam de Machado de Assis?

Durante o curso de Letras eu pude contar nos dedos quantas pessoas pegavam livros para ler. Apenas para ler. É um absurdo tão grande que a cada dia eu me desiludia mais e mais. E então fui fazer aqueles estágios nas escolas. A decepção era ainda maior. De todas as escolas que eu conheço, todas!, não conversei com um (1!) professor que gostasse de ler. E preciso falar que são professores de português?

Pois bem, é nessa condição que estamos. Todos os dias enquanto leio eu anoto os erros gráficos dos livros. (É claro que não sou maldoso a ponto de falar que são erros do autor e xingá-los; já encontrei nos meus livros preferidos!) Então eu mando um e-mail para a editora, e envio meu currículo junto; esqueci de dizer, além de formado eu trabalho como revisor de textos. Nenhuma nunca me respondeu!

Os jornais também não têm revisor mais. Entenderam? Os jornais não têm revisor de textos mais! Sabem por quê? Para diminuir os custos! Então vamos pensar o seguinte: está caro manter uma pessoa que estudou muito para ter condição de revisar um texto para nossos leitores; o leitor que se dane, ele lê um texto mais ou menos e ache bom! O que tenho visto nos jornais não é brincadeira! E os jornais são fonte de pesquisa para inúmeros trabalhos científicos em várias áreas, inclusive a linguística (ciência responsável pela língua).

Pobre língua portuguesa! Abriga versos maravilhosos, frases perfeitas com significados mil! E é tratada assim, com desdém!

Os alunos de escola fazem aula particular de física, matemática, química; só não fazem das matérias ligadas a leitura, como português/literatura, história, geografia. De inglês eles fazem, com certeza! E talvez seja por isso que entram nas faculdades não sabendo onde fica o estado do Paraná, dizendo que o Brasil ganhou a guerra contra o Paraguai, e assim por diante.

Aula particular de redação jamais fazem! E pergunte a algum estudante de qualquer idade, curso, faculdade - o que lá for - como usa a vírgula. Somente a vírgula.

Hoje o poeta Fernando Pessoa estaria como um mendigo, sem lar, já que escreveu "minha pátria é a língua portuguesa". Na verdade estaria como um mendigo, por aí, sem um lugar certo, sem um teto firme para repousar versos com sentidos que nossos professores não conseguem compreender. Imagine os alunos!

Uma vizinha um dia me interrogou no ônibus, logo que saíra da escola (de uniforme ainda): "como você gosta ler livros?" Eu nem respondi. E nem conversamos mais, até hoje; isso deve ter dois anos, eu acho.

Pobre língua portuguesa! Pobres alunos! Peguei emprestado um material de pré-vestibular com uma amiga e não acreditei no que vi. No conteúdo e nos erros do texto. Fiz algumas anotações que não couberam aqui; creio que usarei em outra crônica.

Pobre língua portugesa!

6 comentários:

Patrícia Castro disse...

É, meu amigo das Letras, por causa de tudo isso que você desabafou, acabei Letras agora em 2009/2 e já comecei Direito. Embora eu ache linda e ame Literatura, a vida de professor está um caos. Quanto ao fato de as pessoas lerem pouco, eu também acho que o sistema é arcaico, ou seja, é muita gramática e pouco estímulo à leitura e produção textual. Eu acredito que se aprende mais lendo e escrevendo, os gramatiqueiros acham que você tem que primeiro saber um milhão de regras para poder fazer um texto. Isso seria o mesmo que, para uma pessoa poder dirigir, primeiro aprender o nome de cada pecinha do carro, cada parafuso e arruela, cada caninho e toda aquela parafernália, para só depois poder guiar. O que ia acontecer é que as pessoas iam odiar dirigir. E pensemos, para ser um bom motorista é necessário que saiba o nome de todas as pecinhas do carro? Não, claro que não, é preciso, sim, saber o fundamental e não tão no detalhe. Um grande abraço. Ah, vou dar ainda mais uma olhada no seu blog, mas digo, esse é o seu primeiro texto e adorei!

Cristina Maria disse...

Eu confesso, admito todos os meus erros, não sou menos amante das letras, palavras e lívros, carente de mais oportunidades talvez, mas é triste nossa realidade...
Abraços!

Menina disse...

kkkkkkkkkkkkkk.. Take it easy, my brother!
Não precisa tanto!!
O.o

Beijitos!!

Tata Marques disse...

Odeio estudantes de Letras! Faço algumas disciplinas com eles (os da minha faculdade) e como são curtos! Há exceções, claro. Mas é bem o que vc disse, eles recebem autorização pra ensinar uma coisa que não sabem e nem querem saber. Uma lástima!
E para as escolas públicas de Minas, ainda inventaram aquele negócio de o aluno poder escolher a que grande área do conhecimento vai se dedicar, humanas ou exatas. Acontece que a grande maioria das escolas ficou com exatas, tirando História, Literatura e outras cositas más da grade. Pra piorar, a verdade é que nem deram aos alunos o verdadeiro direito de escolha. Isto porque os diretores escolheram por conta deles, com o puro e único objetivo de privilegiar amigos professores de Química, Matemática e Física (cabide de empregoF). Ou seja, destruíram o pouco que ainda existia da escola pública em Minas.

Hotel Crônica disse...

Acho que o comentário mais apropriado aqui seria o de Bilac. Lembro de minha professora nos ler e explicar esse texto ainda na escola, por isso tenho dúvida. Mesmo quando as aulas são interessantes os alunos parecem não se interessar. Sim, o método de ensino não é tão estimulante como gostaríamos, mas a sociedade no geral é desinteressada pela cultura, passa de pai pra filho creio. No nosso DNA tem futebol e carnaval, e não cultura. Aposto que ninguém da minha sala lembraria da professora passar esse texto 12 anos atrás, porque não estavam abertos à poesia. Esse texto tem por volta de 100 anos e é tão atual quanto o seu. Enfim, Olavo minhas mãos:

" Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! "

Miriam de Sales Oliveira disse...

Talvez seja por isso q/não temos mais bons escritores;para ser bom escritor tem q/ser um bom leitor.
Como os livros fazem parte do meu cotidiano desde menina ,n/sei como alguém consegue viver sem eles. Abraços