31 de jan de 2010

Meu casamento

Dotora, é sério, meu casamento tá acabando! Não sei mais o que fazer! Meu marido desempregado, bebe todos os dias, fuma aquele cigarro fedido. Ah! não suporto mais. Não sei mais o que fazer! Eu falo pra ele ir atrás de emprego mas ele sempre com a mesma história, diz que tá difícil, ninguém dá emprego pra alguém da idade dele, não pode competir com rapazes que saem das faculdades sem experiência alguma. Tá difícil! Meu filho na idade de me tirar do sério! Dotora, esses dias fomos a uma festa, de família, mas era festa. Era no clube do bairro. Coisa chique mesmo, nada eventual. Me produzi toda, fiz cabelo, unha, maquiagem, me depilei toda, toda mesmo, como ele gosta, passei o dia no salão, e ele no bar. Na hora de ir sabe o que ele me falou? Nada! Não disse que eu tava bonita, não me elogiou uma única vez sequer! Ah! não, desse jeito não agüento mais! Mas não posso largar porque aí vão dizer que larguei porque ele tá sem emprego. E não é só por isso, doutora! Você está me ouvindo Dotora? Então porque não diz nada, fica anotando aí nessa folha e não fala um a! Dotora, você ouviu o que acabei de dizer? Disse que passei o dia inteirinho no salão e ele nem disse que eu estava bonita! Sabe o que é isso? Não sabe né, você é doutora, doutora não passa por isso. Agora, eu passo! Eu sei o que é ter um marido em casa, bebendo cerveja todas as noites, um filho correndo e gritando, pedindo, mãe compra isso, mãe compra aquilo! Nem sexo fazemos mais! Acredita? Nem sexo! Tínhamos uma boa relação sexual, fazíamos todos os dias no começo, depois umas quatro vezes por semana, e foi diminuindo até agora, que já estamos vinte e três dias sem fazer sexo! Vinte e três dias sem sexo! Tem noção do que é isso? São vinte e três dias! Não agüento mais! Nem depois do baile, que achei que íamos trepar a noite inteira, pra compensar né... Nada! Nossa doutora, eu falo, falo, falo, falo e você não fala nada. Isso é tão ruim, tão... tão... angustiante. Tô aqui falando tem um tempão e você só anotando nesse papel. O que anotou aí? Você tá me escutando direito? Prestou bem atenção quando eu disse que são vinte e três dias sem sexo, num casamento! Se fosse namoro de adolescente tudo bem, porque todos dizem que aos quinze as pessoas ficam à flor da pele, mas não acredito nisso. Acho que é bem mais tarde. Aos quinze, dezesseis... até os vinte e poucos é só agitação, aquela vontade, mas sexo mesmo, aquela vontade de ficar horas trepando, sem parar mesmo, é só depois dos vinte e poucos. Olha, sabe doutora, acho que agora estou percebendo algumas coisas que não tinha percebido. Não sei como não pensei nisso antes... Vou propor uma viagem só eu e meu marido. Deixar meu filho com minha mãe. Ah! não, não dá. Ele vai querer ir, e se não levar vai ser um saco! Vai falar até me convencer! Já conheço, sei que vai encher tanto que vou ceder e vou acabar levando. Mas aí fica muito pesado pra eu pagar tudo sozinha. Porque minha mãe vai querer ir também, e não tenho coragem de dizer não a ela. Acho melhor ficar. Quem sabe passa um filme bom na tevê hoje, aí podemos assistir nós dois, deitados. Tomara que não passe futebol, senão ele vai beber cerveja, e aí já viu, nada de sexo!
"Olha, sua hora terminou. Semana que vem no mesmo horário, tá bom?"
"Tudo bem Dotora. Muito obrigada!"

4 comentários:

Cristina Maria disse...

Nossa, muito bom! A "mina do cara" escreve crônicas vicerais, parabéns!

Angel Cabeza disse...

E não é amais pura verdade? Muitos casamentos e vidas se resumem ao consultório do analista.

Ótima fotografia da vida.

Abraços.

Alma livre disse...

Cômico se não fosse trágico e verdadeiro....rsrsrrs
Gostei da " mina"
Voltarei sempre,
Abss

Hotel Crônica disse...

Gostei dela reclamar o tempo inteiro e no final praticamente agradecer de joelhos...
hehehehehe
muito bom