19 de dez de 2011

E eu?

Teve uma época que a pessoa mais ligada a mim disse que eu jamais conquistaria alguém pela simpatia. Queria dizer a essa pessoa que hoje sou professor de crianças e piro demais com elas; conheço todas as crianças da escola, carrego alguns no colo, com outros eu jogo bola na quadra, ando de skate com outro – aliás, ganhei de presente um skate dos alunos. E nessa época de fim de ano fiz o que eu realmente queria fazer, passei alunos que não merecem passar. É o sistema.

Assinei camisa de um monte de alunos hoje, lembrei da minha época de escola. Época boa. E fico pensando, por que não deixar as crianças serem crianças? É muito difícil compreender uma criança, é preciso entender que ela tem pensamentos e está começando a criar sentidos; é preciso cuidado para falar, pois elas escutam tudo e o pior, repetem tudo. Complicado também é saber como cobrar. Pega um menino que a relação familiar é complicada, como esperar educação de uma pessoa que não aprende a ser educada?

Queria dizer a outro amigo, este de longa data, que virei mesmo um professorzinho. Cara, e sabe que estou gostando. Eu não sei como posso assumir isso, mas assumo, eu gosto de ser professor. É legal, no fim das contas. Tem momentos legais, e entre eles o conteúdo. Eu não preciso vomitar regras para os meninos. Posso ensinar. Além disso, estou gostando da escola. Agora, de escola continuo não gostando. Mas isso não é assunto pra agora.

E olha só quem aparece na história. Você mesmo, leitor. Está pensando se a história é minha ou é ficção. Não é ficção, é tudo verdade. Por que não falar um pouco sério, já que tenho brincado um bocado. Faz tempo que quero sentar aqui para escrever uma crônica intitulada: Brasil, o país do desperdício. Quanto desperdício vejo por aí. E sabe que na escola é grande. Um que me chamou a atenção foi o desperdício de inteligência. Quanto pensamento jogado fora.

Você acredita que todos os dias eu pego minha caneta, escrevo no quadro a data, bom dia, “aula de hoje”, e sempre um aluno pergunta, é pra copiar? Isso é sempre. Talvez eles não levem a sério as “aulas de hoje”. Tem cada uma. “Aula de hoje: e o mundo encantado das palavras ataca novamente”, ou, “aula de hoje: revisão 4, a batalha final!”

Agora vou falar com a mãe de um amigo muito especial. Passei anos e anos vendo-a preparar aula em casa, montando planilhas, desenhos, gráficos, enfim, tudo. Para ter ideia, isso foi até 98, em Foz; mudei para BH em 2007 e ela continua lá, sentada na sala lendo jornal para procurar material para os alunos, corrigindo prova, esse trabalho de professor. Nunca fui aluno dela. E eu fico aqui, Rosane, pensando: uma pena eu não ser assim, meus melhores professores foram assim, eles chegavam com a cabeça a mil.

Leitor amigo que me acompanha até aqui, diga-me, gostaria de saber que o professor do seu filho adora ler e escrever, e adora entrar na onda das crianças e criar com elas. Cada trabalho legal os meninos fizeram.

Tem duas histórias que eu preciso contar para você, só que você tem que prometer não contar pra mais ninguém. Ok? Um dia castiguei os meninos a copiarem um texto de um livro; a sala finalmente quieta, de repente, um menino cai no chão. Olhei pra ele, olhei pra sala, aquele clima pesado de depois de briga, voltei a olhar o menino no chão e gritei: bolinho nele! A sala inteira pulou.

A outra história é assim. Era sexta, depois do recreio, véspera de feriadão, aquela zona na escola. Entrei na sala e escrevi no quadro, “aula de hoje: sermão pré-feriado e brincadeira do Silvio Santos”. Já no fim da aula fui até o fundo, mostrei pros meninos um saco de balas e falei, brincadeira do Silvio Santos é assim: eu fico com esse saco de balas aqui no fundo e cada bala que vocês pegarem vale um ponto. Aquela euforia.

Lá do fundo da sala, a meninada doida, pulando, gritando, e eu lá, rindo com um saco de balas na mão. Enfiei a mão, tirei as primeiras e gritei: quem quer ponto! Mais uma mãozada: quem quer ponto! Depois de umas quatro sessões chega o pentelho da turma: Márcio, peguei sete balas, são sete pontos. Olhei pra ele, dei um tapa na mão dele, as balas voaram, os meninos pularam no chão para pegá-las, ele ficou sem bala alguma. Dei uma piscadinha pra ele e fui embora.

Pois é, a vida tem dessas coisas, no início do ano recusei uma escola – por não gostar de escolas. Agora no fim do ano, todas as notas passadas, estou escrevendo e rindo das lembranças. E pensando: ser professor pode ser legal.

Todos os alunos lembram: “aula de hoje: eu queria ser legal”.



PS: É uma pena que eles não podem saber d` A Mina do Cara.

8 comentários:

Sandro Ataliba disse...

Cara, de tudo o que você escreveu, a única coisa que não concordo é com o "professorzinho". Eu sou professor, há tempos já, e vivo escrevendo sobre isso. Nosso ofício, que já foi nobre, hoje é tratado como lixo. Se esse é seu primeiro ano, prepare-se. Se você descobriu que tem o dom, nunca mais conseguirá largar a sala de aula. O sistema é ruim, eu sei, e daria várias discussões - na verdade DÁ várias discussões -, mas o que você conseguir fazer independentemente dele dará a você recompensas sem preço.
Curta a onda!
Abraço

Ramon Porto disse...

Mesmo em meio de vários textos de humor, ambiguidade, enfim ...
é notável a veracidade pelo seu gosto em ensinar, e isso não foi mostrado apenas neste post.
tenho muita admiração por profissionais que fazem o que realmente gostam. ensinar crianças realmente é um dom, você não pode tratar todas da mesma maneira, requer muita paciência e observação.
Parabéns Cara_por_trás_da_mina.
abraço

Ana Cris Nunes disse...

"e sempre um aluno pergunta, é pra copiar?" Você dá aulas para crianças, ainda é compreensível ouvir essa pergunta. Agora imagina você iniciar a aula escrevendo no quandro branco e adolescentes de 15 a 18 anos fazerem a mesma pergunta.
Eu escolhi ser professora desde que me entendo por gente, amo o que faço apesar das adversidades e adversidades vamos encontrar em qualquer lugar. Não concordo com o comentário de Sandro Ataliba, quando diz que "Se você descobriu que tem o dom, nunca mais conseguirá largar a sala de aula." Isso é relativo e por mais que gostemos de ensinar (eu digo ensinar), tem outros fatores na vida que podem não nos permitir está em sala de aula.
Tem pessoas que são professores e outras mais que estão professores. E isso independe de está ou não em sala de aula.
...
Um beijo!

Luna Sanchez disse...

Hey, tio : é pra copiar?

=)

Acho a coisa mais lindinha tu professor. Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse teu aluno.

Um beijo, moço querido.

Tá lindo o teu texto.

Antônio LaCarne disse...

estou encantado com seus textos, primeira leitura prazerosa do meu dia que se incicia. abraço.

A Mina do cara! disse...

Sandro, o professorzinho é uma ironia, acho que tá bem explícito, não?
um abraço
___

Ramon, valeu camarada!
abraço
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Ana, não sei eu sou ou estou professor, juro...
um beijo
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Luna, se eu fosse prof do teu filho ele ia pirar muito, pode ter certeza!
um beijo
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Antônio, valeu cara! Volte sempre!

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E pra você que está lendo, um beijo e um abraço. Deixe aqui seu comentário também. Faça parte da Mina do Cara!

A Mina do Cara te ama!

Thiago Castilho disse...

"Passei alunos q nao merecem passar. É o sistema." kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Sinceridade brutal.
Abraço, cara.

A Mina do cara! disse...

Thiago, aqui é assim, sinceridade acima de tudo.
abraço e volte sempre.


A Mina do Cara te ama!