11 de dez de 2010

Ah volta

Sabe, Dotora, já tem uns dias que venho aqui e nunca tive coragem de falar o que hoje quero falar. É difícil, mas tenho que falar.

Eu sou casado, amo minha esposa. Não é traição, pode ficar tranquila. Eu vi uma linda mulher na rua, no supermercado, na verdade. Ela olhava para as embalagens com tanto carinho, tanto detalhamento (existe detalhamento?) que pensei que não tinha dinheiro para comprar. E seu rosto foi-me lembrando cada vez mais alguém, e não lembrava quem. Imagina, eu estava no supermercado, num sábado à tarde, perdendo a pelada com os amigos, e sem dizer que odeio supermercado. Eu nunca havia reparado uma embalagem, nunca!

Ela olhava uma embalagem de jogo de panela. Cheguei perto, olhei o preço, olhei quantas panelas vinham, olhei outra panela, e nada de lembrar. Eu acho que ela me reconheceu, mas com essa aliança desse tamanho ela não ia falar comigo, ainda mais porque minha esposa poderia estar comigo. Então perguntei se estava caro o jogo de panelas. Sabe o que ela me respondeu?

Ela não sabia se estava caro ou não o jogo de panelas! O que ela fazia ali, então? Bem vestida, maquiada, bonita. Não podia ser falta de dinheiro. Mas o quê, então? E eu não lembrava seu nome, e nem de onde conhecia a linda apreciadora de caixa de papelão desenhada! Então resolvi conversar com ela. Nos reconhecemos logo. Eu estava certo, ela ficou com vergonha de falar comigo e minha esposa aparecer e brigar comigo. Que vergonha! Nós fomos apaixonados na adolescência, tivemos um casinho, nada muito sério. É... na verdade era sério... e não foi mais sério porque casquei fora quando ela começou a jurar amor. E então conversamos um bom tempo e descobri que trabalha projetando embalagens. Projetar embalagens! Quem um dia sonhou em ser projetista de embalagem? Ninguém repara nas embalagens!

Ela perguntou pelos poemas. Eu escrevia uns poemas para ela, bem quando comecei a escrever. Românticos, bonitos, sinceros. Respondi que não sabia dos poemas. E ela não acreditou que virei administrador. Ela perguntou se eu sonhava dirigir uma empresa, eu disse que nunca, mas me daria um bom salário; ela riu. Ela sempre gostou de arte, e disse que trabalha com arte. Na hora me convenceu. Não usa aliança; brincos discretos, nada de pulseiras. Está linda! Não acreditei que perguntou pelos poemas! Eu a conquistei com eles, depois não nos falamos por anos, uns oito anos, no mínimo, e ela lembrou dos poemas! Não cabia em mim! A primeira coisa que pensei quando perguntou pelos poemas foi na empresa. Que merda de trabalho eu tenho! Ela achou que eu seria jornalista. Por que todo mundo que gosta de escrever tem que ser jornalista? Odeio jornal; sou obrigado a ler todos os dias pelo menos dois. Pois então, meus olhos brilharam, e ela percebeu, aposto! Conversamos mais uns cinquenta minutos, nos despedimos com um beijo no rosto, claro. Depois disso que não entendo. Não posso passar por uma prateleira que paro, olho a embalagem e penso se foi ela, se tem dedo dela na arte. Porque realmente é uma arte.

Passei a ir ao supermercado com minha esposa, claro que não aos sábados. Se ela precisava ir comprar pão, ia junto. Passamos a demorar em média trinta e cinco, quarenta minutos a mais. E passei a gastar muito mais. Tava lá um jogo de panelas, eu parava, olhava, lembrava, imaginava, e minha esposa também parava, olhava o preço e como eu não falava nada, ela comprava. Nessa brincadeira compramos panelas, televisão, esses enlatados, salgadinhos, biscoitos, iogurtes, tudo o que tinha embalagem artística. E tudo o que não precisávamos. Será que meu caso é serio, Dotora?

“Olha, um simples ditado popular explica. E sua hora hoje terminou. Próxima semana nos vemos, está bem?”


13 comentários:

A Mina do cara! disse...

Sobre o título eu pensei no seguinte:

Ah! Volta. (não voltará.)

A volta. (há volta.)

Há volta. (verbo haver...)

Ah volta. (com ironia; ela nem quer saber de você.)


E você, o que pensou?

Folhas de Andreza disse...

Cara...
Desejo...
que sua inteligência
lhe auxilie na compreensão
de teus problemas,
e que possa solucioná-los
com a moeda de teu próprio suor...
nos momentos difíceis
possa olhar para o alto
e pedir forças
para continuar caminhando...
compreender
que o dom da vida
é o maior tesouro que possui,
que nenhum mal é eterno,
nenhuma dor é insuportável...
que possa também
superar as dificuldades do caminho,
que sua consciência
esteja sempre em paz
o suficiente para prosseguir
com a certeza
que o amor supera todo mal...
enfim...que você,
possa superar suas fraquezas
e que você aprenda
a ser um instrumento de paz
Amém... Feliz Natal

so sad disse...

eu marco o ultima, rs.
como um cara pode fugir pq falamos de amor?

ah! eu acho que isso tambem é traição...de certo modo ainda pior que sexo.

beijo!

Luna Sanchez disse...

Eu pensei "Ah, volta!", como um pedido.

A moça seguiu o coração, tanto que lembra dos poemas. O cara...bem, a ele resta seguir a esposa até o caixa e pagar os tubos pelas embalagens artísticas.

Como a vida consegue ser cruel quando quer, né?

;)

Beijo, beijo.

ℓυηα

A Mina do cara! disse...

Folhas, obrigado!
um beijo.
__

So Sad, é mesmo? muitas vezes ligamos traíção ao ato físico, e esquemos do pensamento "lá em você..."
um beijo.
__

Luna, e consegue mesmo, não?
um beijo.

___

Justamente é o da ironia que está como título. Bem que poderia ser um pedido dele para ele voltar. E a pergunta é: ela voltaria?


um beijo pra você (Mina) que leu e não comentou. Se for Cara, um abraço.

Mgomes - Santa Cruz disse...

Oi Mina do cara: Tem cuidado em olhar para as embalagens pode tua esposa gastar a massa toda mulher sempre lembra o passado.
Um abraço
Santa Cruz

Valéria Sorohan disse...

Fiquei pensando nesse dito popular que explica o caso dele. Qual seria esse dito?!

BeijooO*

A Mina do cara! disse...

Gomes, é isso mesmo.
um abraço
__

Valéria, acredita que esqueci qual o ditado... Escrevi e esqueci... hahaha
Deve ter uns dois ou três anos que escrevei esta crônica, e estará em meu livro também, só que num parágrafo só; adaptei para facilitar a leitura virtual.

Um beijo.

Dannoca disse...

Que ditado popular?

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

e essa volta pode se dá de muitas maneiras, mas o dizer da doutora também pode ser um contra ponto a tudo isso e o que iria ser ficaria pelo caminho

A Mina do cara! disse...

Dani, esqueci... acredita???? hahaha
um beijo. da um abraço no Guga e fala pra ele que o Galo levou de 4!
__

Ediney, você tem razão. um abraço

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O Cara por trás da Mina do Cara manda um beijo e um abraço!

Dannoca disse...

Ah, você tá brincando comigo, você não esqueceu!

A Mina do cara! disse...

juro!!!

depois de uns três meses eu já tinha esquecido.