20 de out de 2009

Seja bem-vindo

“Mas menino, quantas vezes terei que falar para
você não discutir com seu mestre?“
“Não estou discutindo.”
“É claro que está! E está me tirando a razão
perante a classe.”
“Mas professora.”
“Mas nada! Já não é a primeira vez que você faz
isso.”
“Faz o quê?”
“Isso.”
“Isso o quê?”
“Cala a boca e faça a prova! Você sabe muito
bem que se eu quiser você estuda novamente esta
matéria.”
“Ah! Quer dizer que eu reprovo é por matéria?”
“É, sim senhor.”
“E se eu não quiser estudar alguma matéria?”
“Quem foi que disse que você pode escolher algo
aqui?”
“Ué... falaram que aqui se discutia.”
“Falaram!” – interrompe a professora.

Por alguns minutos a sala permanece em
silêncio.

“Eu vou ao banheiro e já volto.”
“Mas professora, você deixará a turma sozinha?,
é uma prova.”
“Porra garoto! Você só fala besteira!”

O garoto explode.

“Eu é que só falo besteira? Quem foi que falou
que o Brasil foi descoberto por acaso? Quem é que nos
obriga a decorar frases de livros? Nem livro brasileiro é!”
“Muitos são.” - interrompe a professora.
“Muitos... grande coisa.”
“Acalme-se, caso contrário não conseguirá
responder às questões.”
“Eu nem quero responder.”
“Se você não responder terei que reprová-lo.”
“Puta que pariu! Vai ser isso a vida inteira?”
”Isso o quê?”
“Você ainda pergunta, professora? Este
autoritarismo.”
“Moleque malcriado. Seus pais não o educaram?”
“Sim professora, mas eles sempre tiveram que
trabalhar durante o dia e às vezes à noite. Por isso eu
sempre passei o dia inteiro na escola.”

E, antes mesmo da professora sentar-se, foi
questionada pelo garoto:

“Professora, você não vai ao banheiro?”
“Me dá o seu teste! Você está reprovado! Ano
que vem nos encontramos nesta sala.”
“Mas professora, pra que você me quer aqui
como aluno de novo?”
“Para servir de exemplo aos outros. Anda logo,
me dá o seu teste.“

O aluno entrega o teste e sai de sala pensando
como será o próximo ano.

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Foi daqui que surgiu a ideia de Conversa Fiada. Foi o primeiro. Me lembro que a professora de produção de texto duvidou da autoria do texto; isso no meu primeiro ano de faculdade.
Foi também minha primeira publicação. Saiu em um jornal de comemoração ao Dia da Consciência Negra, 2003. E também em um jornal da polícia civil de Foz do Iguaçu.
Interessante que saiu no jornal e no mesmo dia algumas pessoas comentaram comigo sobre o texto. Fiquei todo bobo... E agora estou aqui, preparando o primeiro volume impresso.

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